Como faço todos os dias, tentei, mais uma vez conversar com
meu Coração e com meu Cérebro.
O primeiro tem a incrível mania de acreditar em tudo e em
todos, sendo até ingênuo às vezes, deixando eu e meu Cérebro mais ferido que
antigamente.
Já o Cérebro, sempre querendo controlar tudo, adora rir de
mim quando cometo algum erro por culpa do Coração.
- Precisamos conversar – Disse, querendo alguma explicação
desses dois que, inclusive, já conseguiram trabalhar juntos.
Mas isso faz tempo.
Muito tempo.
E depois veio o Cérebro, controlando minha vida de um modo
frio e calculista.
No entanto, essa fase também já passou.
E é por isso, que estou aqui.
- Claro, claro... Deixou, novamente, o seu mole Coração te
controlar! – Exclamou o Cérebro, sua voz cheia de sarcasmo.
- Não é exatamente isso – Comecei a me explicar, mas o meu Coração
não deixou eu continuar.
- Ela somente está apaixonada, seu bobo. – Sorriu docemente
o Coração – E no assunto amor, eu é que comando. –
- E para que serve o amor? Você adora dizer que é o cérebro
o controlador, o cruel. E esse tal amor só serve para deixar as pessoas mais
inseguras, e consequentemente, mais infelizes. O amor é uma grande farsa. Ele
somente existe para fazer todos sofrerem. – No fim de seu discurso, o Cérebro
olhou para o Coração, que ainda sorrindo, afirmava tudo o que o Cérebro disse.
- Sim Cérebro, você está certo. O amor também faz sofrer.
Porem, ele não é uma grande farsa. O que seria do ser humano sem o amor? – Perguntou
retoricamente, olhando para mim – Sem o amor e todo o sofrimento que ele
implica, o ser humano não ia evoluir, pois é a dor do amor que faz os humanos,
quando caídos, terem a vontade de erguer-se e consertar o Coração e o cérebro
que sobraram dele depois de cair.
- Belas palavras Coração, belas palavras – Deu um meio
sorriso o Cérebro. – Jamais conseguiria dizer algo tão bonito assim. Talvez
seja por isso que muitos humanos caem na sua lábia, não?-
- Talvez, talvez... – Riu.
- Okay... Eu gostaria de perguntar algo a você, Coração –
Disse, quando eles finalmente ficaram quietos.
- Diga – Sorriu.
- Por que ficou ausente por tanto tempo? Por que deixou o Cérebro
me controlar por tanto tempo? Por que não mostrou o amor antes a mim? – Estreitei
os olhos, querendo logo minhas respostas.
- Querida, não seja impaciente. – Suspirou – Você foi a única
culpada por isso. Ficou tanto tempo sendo controlada pelo Cérebro, que se
esqueceu do amor, que se esqueceu de mim, deixando de procura-lo. Isso não foi
culpa minha. E nem do Cérebro. Você precisa de um equilíbrio. -
- Mas como? – Questionei já desesperada.
- Deixando que eu, cuide dos assuntos relacionados aos
sentimentos, e o Cérebro, dos assuntos lógicos e racionais. Nunca, em hipótese alguma,
o Cérebro conseguirá trabalhar tão bem com os sentimentos quanto eu, e eu nunca
serei capaz de lidar com a lógica, com a consciência de muitos outros assuntos
que você vai lidar na sua vida. – Sorriu suavemente. – Você ao menos vai tentar
fazer isso? –
Eu sabia que tentaria, e sentindo uma pontinha de esperança
em meio ao desespero e insegurança, a agarrei com unhas e dentes, não deixando escapar.
- Sim. Eu vou tentar. Prometo. – Sorri para ambos, sentindo
essa certeza de que tudo vai dar certo crescendo em mim.
- Acreditamos em você. - Ambos disseram, terminando nossa pequena reuniao, e voltando aos seus respectivos lugares.
E foi assim.
Depois daquele dia, consegui o equilíbrio que minha alma
tanto carecia.
Nunca mais seria alguém frio e calculista, uma eterna
fugitiva de abraços e afetos alheios.
Também não seria nenhuma descontrolada, deixando os
sentimentos me dominarem, de uma forma obsessiva, doentia.
Em perfeito equilíbrio.
Em perfeita harmonia.